ACERVO DIGITAL
WALTER DA SILVEIRA

O cineclubista, crítico de cinema, ensaísta, escritor, advogado e político baiano Walter Raulino da Silveira nasceu em 22 de julho de 1915, em Salvador. Em 1928, com apenas 13 anos, iniciou a sua colaboração no jornal O Imparcial, escrevendo notas e comentários sobre filmes em cartaz nas salas de cinema da capital baiana. No mesmo período, passou a integrar o movimento literário Academia dos Rebeldes, ao lado de nomes como Jorge Amado e Edison Carneiro, entre outros. Em 1931, aos 16 anos, ingressou no curso de Direito da então Universidade da Bahia (atual Universidade Federal da Bahia). Logo depois, entrou para a política como membro da Juventude Comunista. Por muitos anos exerceu, ao mesmo tempo, as carreiras jurídica (como juiz no interior da Bahia e, depois, como advogado em Salvador), política (foi filiado ao PCB – Partido Comunista Brasileiro – e, posteriormente, foi suplente de deputado estadual pelo PTB – Partido Trabalhista Brasileiro –, no período de 1955 a 1959, assumindo o mandato no último ano) e cinematográfica (como cineclubista, crítico e entusiasta do cinema brasileiro, publicando textos em jornais e revistas especializadas, bem como participando de congressos e festivais no Brasil e representando o país em eventos internacionais). A vasta trajetória de Walter da Silveira é também marcada pela criação do Clube de Cinema da Bahia e pela atuação como professor, autor de livros, figurante em filmes realizados na Bahia e muito mais. Walter morreu em 5 de novembro de 1970, aos 55 anos, em Salvador. Ele deixou um importante legado, que se traduz na dimensão de seu acervo documental. 

O acervo completo de Walter da Silveira é composto por mais de 5.000 itens documentais. Parte significativa desse acervo ficou guardada durante décadas no apartamento da família Silveira, no bairro da Graça, em Salvador. O acervo foi organizado inicialmente a partir de um inventário feito em 2013, coordenado por Paulo Ivan da Silveira, neto de Walter. Em relato publicado no perfil no Facebook da primeira etapa do projeto Acervo Digital Walter da Silveira, ele relata:

“Nasci 15 anos depois da morte do meu avô. Já houvera tempo suficiente para que
o seu falecimento precoce, aos 55 anos, tivesse sido digerido pela família. Já não
se falava muito sobre ele nos encontros familiares. A atração que passei a sentir
pela história daquele homem, pai do meu pai, já me fazia passar horas no seu
antigo gabinete, anexo ao apartamento onde ainda morava minha avó [Ivani da
Silveira]. Naquelas antigas cadeiras sentaram-se Glauber Rocha, Jorge Amado,
Vinicius de Moraes, entre tantos artistas e pensadores contemporâneos de Walter.
Nas estantes e nos armários, centenas de livros, de cartas com interlocutores de
todo o mundo, documentos do primeiro Clube de Cinema da Bahia,
aproximadamente 1.000 fotos, dezenas de slides de Leão Rozemberg, 12 roteiros de
filmes com dedicatórias etc. Aquele meu novo santuário empoeirado me dava
frescor imemorial, ligação visceral com meu avô e nostalgia de um tempo que não vivi.”


Ao participar de um programa da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Paulo Ivan trabalhou com moradores do bairro do Uruguai, na península de Itapagipe, no subúrbio de Salvador, onde Walter também atuou como advogado para sindicatos de trabalhadores. É quando nasce o projeto de recuperação da memória guardada naquele apartamento da Graça, projeto este que Paulo Ivan coordenou com a colaboração da bibliotecária Gleide Machado e o apoio financeiro do governo do Estado da Bahia. O inventário dos documentos foi realizado pela arquivista Maíra Salles; os livros da biblioteca de Walter foram inventariados pela bibliotecária Valdenice Vieira. 

Em 2015, o acervo documental que estava no antigo apartamento da família Silveira foi transferido para o Museu de Imprensa da ABI (Associação Bahiana de Imprensa). Em 16 de setembro de 2015, a ABI realizou uma solenidade de recebimento do acervo de Walter da Silveira, que teve a presença de familiares do crítico, como Paulo Ivan da Silveira, Eliana da Silveira Aguiar, Diana da Silveira, Márcia da Silveira Tavares, Kátia da Silveira Andrade, Danilo da Silveira Andrade e Tânia Mara da Silveira, bem como de Guido Araújo e de Roque Araújo, dois expoentes do cinema na Bahia que conheceram de perto o crítico. Ao receber o acervo, a ABI assumiu a responsabilidade em conservar, restaurar e compartilhar os documentos que o crítico cuidadosamente guardou ao longo da vida.


Em 2020, surgiu então o projeto Acervo Digital Walter da Silveira, com o objetivo inicial de digitalizar a documentação sobre Arte Cinematográfica que consta no acervo do crítico baiano. Em 2021, foi elaborado o relatório intitulado “Banco de Dados para o projeto Walter da Silveira: Acervo Digital”, resultado da consultoria técnica de Gabriela Sousa de Queiroz. O relatório propõe, a partir do inventário realizado pela família Silveira em 2013, um arranjo de informação para a estruturação do amplo acervo de Walter da Silveira, contendo os seguintes grupos: 1) Vida Familiar e Pessoal
(documentação pessoal e trajetória biográfica); 2) Direito (produção intelectual no campo jurídico, além de documentos das suas atividades como advogado e juiz); 3) Política (militância política e participação representativa); 4) Arte Cinematográfica (produção intelectual no campo cinematográfico, documentos de sua atividade como crítico e de sua participação em eventos como congressos e festivais, além de toda a documentação do Clube de Cinema da Bahia); 5) Literatura (produção intelectual no campo literário e documentos de sua participação em eventos); 6) Artes (participação
em eventos e relações institucionais no campo das artes); 7) Biblioteca pessoal (incorporada ao acervo da biblioteca da ABI); 7) Documentação póstuma complementar (homenagens a Walter e publicações sobre o seu legado).


O projeto Acervo Digital Walter da Silveira propõe, assim, higienizar, restaurar, classificar, catalogar, digitalizar e disponibilizar de forma on-line milhares de itens documentais que constituem o acervo do crítico baiano, sob a salvaguarda do Museu de Imprensa da ABI. A documentação, após ser higienizada e restaurada, é tratada segundo as ferramentas de organização da arquivística – como inventário, arranjo de informação, classificação, catalogação – e, em seguida, recebe tratamento digital para tornar-se acessível no site do Acervo Digital Walter da Silveira, com sistema de busca para pesquisa: www.walterdasilveira.com.br.


O tratamento museológico e arquivístico desse acervo, dada a sua extensão e complexidade, ocorre em etapas. Inicialmente, o foco é a documentação sobre cinema. Em 2021, foram digitalizados e disponibilizados 317 itens documentais (cartas e fotografias do cinema brasileiro). Em 2026, foi criado um arranjo de informação específico para o Clube de Cinema da Bahia, com a disponibilização de 799 itens documentais desse acervo, além de 376 fotografias e cartões-postais do cinema internacional e 202 fotografias do cinema brasileiro. Atualmente, o site conta com 1.377 documentos, com ferramentas de acessibilidade e uma nova identidade visual.


O projeto Acervo Digital Walter da Silveira foi contemplado, em sua primeira etapa, com apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura (SECULT) e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), por meio do Programa Aldir Blanc Bahia, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal. Em sua segunda etapa, o projeto contou com apoio financeiro do governo do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura via Lei Paulo Gustavo, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal.


Por meio deste site, a ABI inaugurou uma política de acesso ao seu conjunto de acervos, do qual a seção dedicada a Walter da Silveira é um dos principais destaques. A ABI dará continuidade aos trabalhos necessários para disponibilizar a totalidade do rico acervo de Walter da Silveira, gesto fundamental para a sua democratização, já que assegura o acesso a fontes preciosas de informações sobre o cinema e a cultura brasileiras.


Para a divulgação do Acervo Digital Walter da Silveira, este site utiliza o software livre Tainacan, desenvolvido pelo Laboratório de Inteligência de Redes da Universidade de Brasília (UnB), com apoio da Universidade Federal de Goiás (UFG), do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM)